A Forma do Silêncio

Durante o período da pandemia de Covid-19, vi-me imersa em um cenário de incertezas e transformações abruptas. A crise na saúde pública se espalhava rapidamente, e era possível testemunhar a angústia e o sofrimento que atingiam milhões de pessoas ao redor do mundo.
A cada notícia sobre o aumento de mortes e hospitais lotados, sentia um aperto no peito — uma sensação de impotência diante do desconhecido e um medo tremendo de, de algum modo, fazer parte da estatística de tragédias que se tornava diária.

A crise não se limitava à saúde física. A saúde mental também enfrentava o seu próprio colapso.
Além das perdas e das incertezas, o isolamento social necessário para conter o avanço do vírus impôs uma distância dolorosa entre as pessoas. As interações, antes tão naturais, tornaram-se escassas e impessoais. A solidão se fez companheira constante, trazendo consigo o vazio e a melancolia.
O home office virou solução para quem podia trabalhar à distância, mas também trouxe a sensação de viver num tempo suspenso. Em minha família, com um membro atuando na área da saúde, convivíamos com a ansiedade diária de uma ameaça invisível, que rondava a todos nós.

Nesse contexto desafiador, encontrei nas técnicas de expressão artística um alívio para a alma. Comecei com a pintura e, pouco a pouco, fui me aventurando no desenho.
Depois passei a unir pedaços de tecido às imagens, e em seguida descobri o prazer de montar mosaicos com objetos coláveis que me chamavam a atenção.
Foi assim que a colagem se tornou minha aliada na travessia — uma forma de extravasar emoções e dar voz às inquietações internas.
Recortar pedaços de revistas, jornais e fotografias e reorganizá-los em novos significados tornou-se um gesto simbólico de reconstrução.
Cada recorte representava uma parte de mim, um fragmento da minha subjetividade. Ao unir esses pedaços, eu também me unia.

A colagem me permitia explorar a criatividade, a experimentação e a livre expressão.
Entre novos arranjos de cores, formas e texturas, encontrei um caminho de autodescoberta e cura.
Descobri que a arte não apenas me proporcionava um escape do sofrimento, mas também inspirava reflexões profundas.
Minhas colagens tornaram-se uma forma de diálogo comigo mesma — um espelho das minhas emoções mais íntimas. Cada criação era um convite para mergulhar em meu mundo interior e explorar os cantos mais ocultos da minha psique.


Percebi, ainda mais fortemente, o potencial terapêutico da Arteterapia e compreendi como ela pode auxiliar pessoas diversas na promoção do bem-estar e da saúde mental.
Durante a pandemia, compartilhei, a pedidos, materiais de colagem que foram enviados pelo correio e organizei oficinas on-line, uma delas com pacientes psicóticos — um grupo especialmente vulnerável naquele momento.
A interação virtual limitava a criação de vínculos, mas ainda assim proporcionava contornos novos de encontro e investigação. Mesmo à distância, algo essencial se preservava: o gesto de criar continuava sendo um modo de existir.

A pandemia revelou a dimensão silenciosa do sofrimento psíquico.
Em situações assim, o número de pessoas afetadas emocionalmente costuma ser maior do que o das acometidas pela infecção em si.
Traçando um paralelo com o que Jung observava em sua prática clínica, é possível pensar que a doença mental é, muitas vezes, silenciosa e subnotificada.
Jung se deparava com inúmeros casos de esquizofrenias latentes — pessoas que buscavam ajuda psicológica sem recorrer a instituições psiquiátricas. É provável que essa realidade permaneça atual, especialmente em contextos de grande estresse coletivo, como o de uma pandemia mundial.

Jung acreditava na possibilidade de tratar distúrbios psicóticos também por vias psicológicas.
Para ele, pacientes esquizofrênicos compartilham necessidades semelhantes às dos neuróticos, mas com uma estrutura psíquica menos estável.
Seus sonhos — frequentemente dramáticos e apocalípticos — revelam a tensão entre o indivíduo e o mundo, expondo o isolamento ameaçador que enfrentam.
Jung propunha o uso de recursos expressivos, como o desenho e a pintura, para que o caos interno pudesse ser traduzido em imagens compreensíveis.
A criação artística oferece, nesse sentido, uma forma de mediação segura com o inconsciente: a imagem criada substitui o impacto assustador do caos e o torna observável.

Por isso, a arte tem poder terapêutico. Ela nos ajuda a dar forma ao que ainda não foi nomeado.
A psicologia junguiana vê no ato criativo um caminho de integração entre consciente e inconsciente, por meios menos invasivos.
Tudo o que é imaginativo é, também, real.
E é nesse espaço simbólico — entre o gesto, o material, a escolha e o olhar — que a psique encontra uma possibilidade de cura.


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