Há poços que se abrem na terra, e há poços que se abrem na alma. O filme O Poço, de Pedro Rivera, traz inúmeras possibilidades de interpretação. Adiciono aqui mais uma, à luz do pensamento junguiano.
O ambiente do filme é uma prisão disposta em diversos andares rasgados por um átrio central. Essa coluna vertebral invisível une visualmente os andares mais próximos. Por ela desce uma plataforma com comidas que servirão a todos os níveis. Os primeiros andares, mais próximos da superfície, recebem diariamente um banquete, enquanto os pisos mais baixos ficam com as migalhas que sobram.
Essa alegoria espacial pode ser lida como uma estrutura psíquica, com suas camadas mais próximas do consciente, que normalmente alimentamos, até as sombrias profundezas esquecidas da mente. Assim, todos os andares são estratificações da psique, com menos ou mais conteúdo sombrio, conforme vai-se aprofundando no poço. Quanto mais fundo, mais inconsciente se torna o conteúdo, e mais selvagem é sua atuação. Imoguiri, uma personagem que trabalhava para o sistema – no nível consciente – tinha conhecimento de 200 andares. Há conteúdos oceânicos que a nossa consciência ignora completamente. A vida exige que mergulhemos nessas águas turvas, pois, como diria Jung, “só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos”.
Para a psicologia analítica, vivemos num constante processo de individuação em direção ao Self, até que a morte nos alcance. O Si-mesmo, ou Self, pode ser definido como a “divindade interior” – a Imago Dei que cada um carrega em seu íntimo, uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem, ou seja, da totalidade. É também a unidade em que se encontram os opostos: luz e sombra, yin e yang, anima e animus.
A criança possui esse sentido de totalidade inato, antes mesmo da formação do seu ego consciente. Já o adulto atinge essa função transcendente por meio da união do consciente com os conteúdos inconscientes da sua mente. Não há como se aproximar do Self sem integrar a contraparte interior – o homem a sua anima, a mulher o seu animus. É na nossa essência hermafrodita que reside a completude psíquica e, portanto, a inteireza da alma.
Nossa contraparte faz parte da nossa psique e nela se encontram as qualidades inerentes ao sexo oposto, mas que não são conscientes. Dependendo do perfil psicológico, certas qualidades podem aparecer reprimidas no inconsciente. Jung denominou de anima a contraparte feminina da psique do homem e de animus a contraparte masculina na psique da mulher. Essas designações, porém, não se referem ao gênero biológico, mas a energias psíquicas arquetípicas que habitam todo ser humano. Assim, quem se reconhece essencialmente feminino traz em seu inconsciente uma energia de natureza masculina — e vice-versa — como forças complementares que buscam integração. Anima e animus são arquétipos com raízes no inconsciente coletivo.
Mas essa totalidade só pode emergir quando as polaridades internas se reconhecem e se integram – é aí que surgem as figuras da anima e do animus. Na alegoria do poço, todos os níveis da alma são atravessados fortemente por uma agressividade masculina, num sistema de competição extremado, randômico e selvagem. Podemos ampliar o significado do alimento e da luta pela sobrevivência diante da escassez. Nessa leitura, o alimento pode ser compreendido em vários sentidos: físico, psíquico ou espiritual.
Os prisioneiros são partes do que somos. Quando reprimimos essas partes, alimentamos sua capacidade explosiva. Ignorar esses conteúdos adoece o sistema porque, segundo Jung, “tudo aquilo que não enfrentamos acaba se tornando o nosso destino”.
Goreng é o prisioneiro que propõe uma mudança na dinâmica da prisão. Seu objeto de escolha, para acompanhá-lo nessa trajetória, é um livro. Simbolicamente, Goreng representa o conhecimento ou a consciência a partir do autoconhecimento. Dom Quixote, um dos livros mais lidos na cultura ocidental, pode ser visto também como um símbolo do inconsciente coletivo que ele carrega. Cervantes mistura, em seu livro, fantasia e realidade na luta por um mundo melhor. E assim, descemos com Goreng nesse universo desconhecido e tenebroso da alma pois, “o homem que não atravessa o inferno de suas paixões, também não as supera”.
O arquétipo feminino surge no poço por meio de três personagens principais: Imoguiri, Miharu e a criança.
– Imoguiri trabalhava para a administração do poço, e, portanto, conhece a maioria dos prisioneiros – um elemento do consciente que reconhece as características de alguns aspectos internos. Ela opta por entrar nessa experiência com seu cachorro, seu lado primitivo e manso, que é logo abatido. Não por acaso é ela quem acende a chama da mudança em Goreng, com suas dóceis súplicas em prol de uma ordem que equilibre e integre o sistema. É uma anima consumida pelo câncer, mas que ainda assim, encontra forças para buscar o caminho da conciliação. Em vão.
– Miharu é a anima contaminada pela fúria dominante do masculino, tentando sobreviver num ambiente tóxico. Ela também aponta para uma saída. É ela quem, na insanidade da sua ira, busca tresloucadamente por uma filha. Suas armas se mostram inócuas diante da força de uma agressividade maior, morrendo antes de encontrá-la.
– Finalmente, temos a criança. O que ela significa nesse contexto? Ela representa o resgate da anima equilibrada em toda a sua pureza, personificada em uma criança – símbolo da esperança, mas ao mesmo tempo embrionária, que ainda precisa amadurecer para ser capaz de transformar. Ela é encontrada quase no fundo do poço, nas pregas escondidas da alma, nas últimas camadas do inconsciente, imersa e oculta na mais isolada sombra. A última conquista para se obter o completo conhecimento de si mesmo. É extremamente difícil atingir o autoconhecimento sem sucumbir à loucura, sem perder a inteireza. Descobrir toda a feiura e a verdade da alma assusta, choca, mortifica.
Três vezes três. Nascimento, vida e morte. Três é o símbolo da perfeição para Pitágoras, a soma da unidade, do um, com a diversidade representada pelo dois. Para a maçonaria o três significa fé, esperança e caridade. No significado espiritual, o três representa a unidade divina: Pai, Filho e Espírito Santo – Brahma, Vishnu e Shiva – Ísis, Osíris e Hórus. É no nível 333 que Goreng chega ao fundo do poço com a criança e seu Sancho, o personagem Baharat, já combalido. Nesse momento, ele compreende que deve deixar a menina subir sozinha na plataforma e se perde na escuridão, escoltado por um aspecto seu que, simbolicamente, ele próprio matou. Como se a deusa hindu, Kali, tivesse atuado, Trimagasi ressurge transformado, com sua aspereza e ironia transmutada em uma sábia serenidade.
A criança é então elevada pela plataforma ao Self simbólico, no alto, onde a comida é feita e é farta. O paraíso. Encontrar o Self é retornar à essência divina onde tudo é pleno – é o retorno à casa. A inversão do mito da queda primordial, por meio do conhecimento que te leva de volta. É esse o desejo da alma. E é nisso que reside a esperança.
Uma sensação de plenitude nos distancia da tumultuada loucura quixotesca realizada até ali. A cena sugere que a jornada de Goreng termina aqui. Dom Quixote caminha na imensidão escura da fantasia necessária para se aventurar nesse novo mundo, subvertendo a lógica para encontrar sentido – para encontrar a verdadeira liberdade. E assim o Quixote de Cervantes nos ensina:
“A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida. “
No final, o cavaleiro errante retira a armadura da loucura e recobra a lucidez que lhe permite olhar o caminho percorrido antes de se confundir com a escuridão. Seu epitáfio registra: teve tudo em muito pouco / porque viveu como um louco.
O poço, que parecia prisão, revela-se caminho; o mergulho, que parecia queda, ascensão. O que sobe à superfície não é apenas a criança – é a própria psique reencontrando o Self.


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