“Poor Things” traz o desconcertante reconhecimento de uma realidade ainda existente, através do olhar estrangeiro de Bella. Estrangeiro como em Camus – com estranhamento e sem pertencimento. Um olhar novo, mas diferente de Meursault: ativo, questionador, prospectivo e, ao mesmo tempo, ciente de toda a sua complexidade, ética e humanidade.
O filme, dirigido por Yorgos Lanthimos e escrito por Tony McNamara, é baseado na novela de 1992 de Alasdair Gray. Lanthimos explora a liberdade na forma e no argumento, próprios do realismo fantástico e do cinema do absurdo, característicos da escola grega a que pertence. A cenografia é distópica, com referências que vão de Frankenstein e O Médico e O Monstro, a Alice no País das Maravilhas. Dentro dessa perspectiva, não compreendo Bella como uma criança se desenvolvendo no corpo da mãe – leitura que abriria outros caminhos. No realismo fantástico a interpretação é menos literal. Bella nasce adulta, em um corpo já formado. Essa situação inusitada a faz aprender sem vulnerabilidades.
Bella não cresceu nem se desenvolveu ao longo de anos; não foi intermediada nem interditada pela cultura familiar e social. Não foi moldada pelas interações que normalmente constroem a identidade e os papéis sociais de um indivíduo. Não conheceu a dependência absoluta desde o seu nascimento.
Bella surgiu como uma experiência científica e carrega consigo o frescor do primeiro olhar – uma tábula rasa, livre de implicações históricas, de imersões dogmáticas e de comportamentos moldados pelo ambiente. Seu inconsciente pessoal não está vinculado ao inconsciente coletivo da humanidade.
Ela não experimentou a indiferenciação que os bebês sentem em relação ao ambiente, nem se sentiu dependente dele, necessitando do holding e do handling winnicottiano, fundamentais ao desenvolvimento saudável. Bella nasce psiquicamente inteira: sem amarras, sem cisões, sem complexo de Édipo, sem teorias existencialistas, sem o medo do desamparo, sem se alienar ao outro, sem ser sintoma do outro.
Bella veste o olhar estrangeiro para se aventurar em terras oníricas de um mundo com contornos vitorianos – uma mulher livre em um tempo de ouro do patriarcado. Há nela uma curiosidade intrínseca, motivadora, própria da condição humana. Bella observa, experimenta, testa, contesta. Quer fazer parte. Quer compreender o mundo e o seu mundo.
Sua investigação começa pelo domínio do próprio corpo. Aprende a se movimentar com fluidez, passando de gestos bruscos e desajeitados, em staccato, para uma valsa que a conduz não só ao controle dos movimentos, mas também dos desejos. Explora o corpo e, como num percurso natural, descobre o prazer.
Bella avança em sua jornada. Olha para fora. Descobre o fazer, o saber, o ter e o ser. Descobre o ser não no outro, mas com o outro. Sendo, sente a beleza do pas de deux. Vive isso naturalmente. Vive seus desejos – e isso é potente.
Bella quer se lançar ao mundo. Morde a maçã. Como experimento que é, ela vai – é necessário! Faz parte da natureza humana aventurar-se, romper as barras protetivas, conhecer. Seu criador sabe e nada faz para impedi-la. Seu criador, sem dogmas, tem fé na sua criação.
Bella conhece o mundo e o submundo. Observa, mistura-se, e em seu estranhamento, desvela muito mais a nós do que a si própria.
Bella segue sendo. Dizendo o que pensa, fazendo o que quer. Não se interrompe, não se amedronta. Não sabe que não pode. Quando interditada, subverte.
A regra do outro não lhe cai bem. Bella dança a música no próprio ritmo, à sua maneira – comme il fault – com a naturalidade de quem sempre é. E sendo, constrói sua história, que é dela, embora com desenhos externos.
Bella chega ao bordel. O que nela é natural ali é objetificado e explorado – troca, e não entrega. Bella conhece o desvio, o suplício, o forjado, o corrompido e as máscaras criadas para o gozo: submissão, sadismo, masoquismo, dominação, perversão. É neste ponto que nossa leitura se detém nos óculos machistas e misóginos de uma pauta importante, mas que, nesse caso, não é o caso. Ainda assim, é com escárnio, deboche ou fúria que se julga e se condena todos os personagens dessa parte.
A fechadura aqui nos convida a espiar o estranhamento do prazer pelo viés antropológico – ainda pelo olhar estrangeiro. Por que as fantasias, perversas ou não, são tão necessárias ao gozo? O que foi feito do que deveria ser natural e simples?
A repressão do prazer feminino transbordou fronteiras, tornando todos vítimas com feridas abertas – umas mais, outras menos severas.
Bella encontra a miséria humana e se revolta. Seu olhar desperto, pré-anestésico, não se contém. Não há sentido em ter muito enquanto outros nada têm.
A única lógica possível é dividir. A única lógica possível está na luta pelo conhecimento – não pela sobrevivência. E essa lógica, na sua lógica, se estende a todos.
Bella descobre a leitura. Descobre a política, a filosofia, a dialética. Descobre também a dominação do outro, que busca reduzi-la ao prazer – mas desse outro.
Nada a abala. Essa camisa de força, nem reconhece. Segue se deixando ser.
Bella busca sua identidade. Vai ao encontro da vida que seu corpo tinha. Naquela que deveria ser – lambuzada na lama cultural da dominação patriarcal, controlada pela violência física, psíquica e moral – ela não se reconhece.
Compreende, transforma, cria. Quer viver seu corpo sem dogmas e sua sexualidade com naturalidade. Quer ser o que quer ser. Quer ter alguém ao lado, caminhando junto, sem salto agulha, numa relação de construção de mundo conjunta – onde o amor nasce quando se avista a mesma paisagem.
Essa é a história da Bella sob o meu ponto de vista: a liberdade como atributo humano sem as trincas da infância.
Já as histórias de todas as outras pobres criaturas que atravessaram esse percurso – afogadas no caldo cultural espesso e turvo cozinhado no filme – nada tenho a dizer ou a acrescentar.
Ao que me parece, elas ainda vivem entre nós. Ou em nós. E essas, conhecemos bem.


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